1ª fase: Pré-Caeiro
A primeira fase expressa uma forte falta de sentido para a vida, tédio, a busca por sensações novas, a fuga da monotonia e a relação com o decadentismo. Podemos observar essas características no poema Opiário, dedicado ao amigo Mario de Sá-Carneiro, resultado de uma viagem do jovem Campos ao exterior. Este poema representa a estética de Álvaro de Campos antes da influência de Caeiro, como foi dito, e surgiu da urgência de se preencher o número de páginas do primeiro número da revista Orpheu, criada for Fernando Pessoa.
OPIÁRIO
Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro
É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.
Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola pra adaptar-me.
Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.
É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.
2ª fase: Campos Eufórico
A segunda fase do poema,
com versos livres, após o contato com Alberto Caeiro, é caracterizada pela
exaltação ao futurismo (vanguarda européia), expressa energia e vida,
intelectualização das sensações, impulsos e emoções. Nessa fase Caeiro também faz
grandes referências e saudações ao escritor Walt Withman, por quem nutria
grande admiração. Vejamos:
SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN
Portugal-Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!
De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!
3ª fase: Campos disfórico
A última fase de Álvaro de campos é a mais expressiva. Caracteriza-se pela expressão de um profundo cansaço, desilusão, conflito entre a realidade e o próprio poeta, angústia, desânimo e a dor de pensar. Vejamos "Tabacaria":
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da
rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na
ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por
dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
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