A Poesia de Alberto Caeiro

O principal conjunto de poemas de Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos", é constituído por 49 poemas. Na obra, está sintetizado todo o estilo desse heterônimo. Trata-se de uma poesia aparentemente despojada, que foge de termos rebuscados, com uma sintaxe límpida, em versos livres e brancos. A criação, no entanto, só é simples à primeira vista, pois um olhar mais atento revela um conjunto de pensamentos coerentes, o que insere sua obra na categoria das poesias de fundo filosófico, com inclinação metafísica.

A maneira como Caeiro faz isso, porém, é paradoxal: a afirmação de sua filosofia é uma não-filosofia, um não-pensar e, portanto, não-desejar, o que o aproxima, nesse aspecto, do zen-budismo oriental. 

“Eu não tenho filosofia: 
 tenho sentidos… 
Se falo na Natureza 
não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque quem ama 
nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, 
nem o que é amar… 
Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência 
não-pensar…” 
Só tenho pena de saber 
[que eles são contentes, 
Porque, se o não soubesse, 
Em vez de serem contentes 
[e tristes, 
Seriam alegres e contentes”. 
[vida fosse um carro de bois 
Que vem a chiar, 
[manhãzinha cedo, pela estrada, 
E que para de onde 
[veio volta depois 
Quase à noitinha 
[pela mesma estrada. 

Caeiro opõe os seus sentidos a uma filosofia, um conjunto de pensamentos. É por isso que se pode chamá-lo de um poeta “sensacionista”.

Contudo, não se deve pensar – nem muito menos escrever – sem utilizar a linguagem, e é por isso que a poesia de Caeiro encontra sua força de tensão na contradição que é o “pensar-não-pensando” ou o “não-pensar-pensando”. A “inocência de não-pensar” nunca é atingida plenamente pelo poeta, embora ele sempre afirme o contrário. Por exemplo, no verso “Há metafísica suficiente em não pensar em nada” foi preciso que o eu-lírico escrevesse a palavra metafísica e pensasse na não-validade de seu significado. Observe o texto abaixo: 

“Os meus pensamentos [são contentes. 

O poeta afirma, primeiramente, que seus pensamentos são contentes, mas logo coloca uma objeção ao contentamento positivo do primeiro verso: “saber” que se é contente resulta numa tristeza que, no universo de Caeiro, será sempre a conseqüência do pensamento. A equação em Caeiro é sempre dupla: positivo (contentes) e negativo (tristes) andam juntos, estão opostos, mas dependem um do outro para existir. Outro poema que ilustra essa dualidade é o seguinte: 

XVI 
Quem me dera que a minha 
Eu não tinha que ter esperanças 
[ — tinha só que ter rodas… 
A minha velhice não tinha rugas 
[nem cabelo branco… 
Quando eu já não servia, 
[tiravam-me as rodas 
[E eu ficava virado e partido 
no fundo de um barranco. 

A expressão inicial “quem me dera”, seguida do uso do subjuntivo “fosse”, remete a um desejo do poeta, que é também uma projeção ou idealização. Nesse sentido, Caeiro contraria a própria receita de não desejar e não contemplar. Seu olhar é puro pensamento, ideologia materializada de um bucolismo moderno, que se revolta contra as ideias sedimentadas e tenta buscar as origens de um pensamento mítico por meio da linguagem. No poema, a forma busca ser anterior a si mesma. 

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