Mensagem


Mensagem foi o único livro de poemas, em língua portuguesa, que Fernando Pessoa publicou em vida, lançado comercialmente em 1° de dezembro de 1934. Nele, o poeta reconstrói a história de Portugal a partir dos três grandes mitos:

1) o Rei do escondido na ilha, o salvador;
2) a audácia do impossível;
3) o fundador que veio de longe.

Formada por 44 poemas curtos, que compõem retratos de seres reais, seres lendários e do próprio país. O livro é organizado por três partes:

1) Brasão  2) Mar português e  3) O Encoberto








1) BRASÃO

II. Os Castelos 
Primeiro / Ulisses 
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo. 
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou. 
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

2) MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor,
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, 

Mas nele é que espelhou o céu.

3) O ENCOBERTO

Onde quer que, entre sombras e dizeres, 

Jazas, remoto, sente-te sonhado, 
E ergue-te do fundo de não-seres 
Para teu novo fado! 

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo, 
Mas já no auge da suprema prova, 
A alma penitente do teu povo 
À Eucaristia Nova. 

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido, 
Excalibur do Fim, em jeito tal 
Que sua Luz ao mundo dividido 
Revele o Santo Graal! 


A Poesia de Ricardo Reis

Em Ricardo Reis, observamos uma poesia muito influenciada pelo clássico, ligada ao paganismo e nas presenças quase-divinas, com linguagem culta e precisa (principalmente o recurso do hipérbato, uma figura de linguagem que consiste na inversão ou troca de termos sintáticos dentro da oração). Era uma poesia rigorosa, formal e culta.

Seu poema mais famoso é "Segue Teu Destino", que no Brasil foi musicado e representado pela cantora de MPB Maria Bethânia.



Segue o teu destino, 

Rega as tuas plantas, 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias. 

A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nos queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós-proprios. 

Suave é viver só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses. 

Vê de longe a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos deuses. 

Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam.

— RICARDO REIS 





Álvaro de Campos


"O histericamente mais histérico de mim" 

Álvaro de Campos nasceu em 15 de Outubro de 1890, estudou engenharia mecânica e naval e teve uma educação vulgar de Liceu. É o poeta da modernidade,  vanguardista e cosmopolita. É um observador do quotidiano da cidade através de seu desencanto. É considerado o heterônimo mais próximo de Fernando Pessoa e o mais apaixonante de todos pois, segundo Pessoa: “dei a campos a emoção que nunca dei a mim e nem a minha vida”.

Esse heterônimo surge quando Fernando Pessoa sente “um impulso para escrever”. O próprio Pessoa considera que Campos se encontra no "extremo oposto, inteiramente oposto, a Ricardo Reis”, apesar de ser também ser um discípulo de Caeiro. Para ele, a sensação é tudo. O sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte. O eu-lírico do poeta tenta integrar e unificar tudo o que tem ou teve existência ou possibilidade de existir.

Cantor do mundo moderno, o poeta procura incessantemente “sentir tudo de todas as maneiras”, seja a força explosiva dos mecanismos, seja a velocidade, seja o próprio desejo de partir. Campos tanto celebra, em poemas de estilo torrencial, amplo, delirante e até violento, a civilização industrial e mecânica, como expressa o desencanto do quotidiano citadino, adotando sempre o ponto de vista do homem da cidade.



A Poesia de Álvaro de Campos

A poesia de Álvaro de Campos, sem dúvidas, é a mais expressivas dentre as outras. Álvaro, por ser "o poeta da modernidade, da euforia e do desencanto da modernidade, da irreverência total a tudo e a todos", apresenta três fases marcantes para a sua produção, sendo elas:

1ª fase: Pré-Caeiro

A primeira fase expressa uma forte falta de sentido para a vida, tédio, a busca por sensações novas,  a fuga da monotonia e a relação com o decadentismo. Podemos observar essas características no poema Opiário, dedicado ao amigo Mario de Sá-Carneiro, resultado de uma viagem do jovem Campos ao exterior. Este poema representa a estética de Álvaro de Campos antes da influência de Caeiro, como foi dito, e surgiu da urgência de se preencher o número de  páginas do primeiro número da revista Orpheu, criada for Fernando Pessoa. 


OPIÁRIO

                        Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

2ª fase: Campos Eufórico

A segunda fase do poema, com versos livres, após o contato com Alberto Caeiro, é caracterizada pela exaltação ao futurismo (vanguarda européia), expressa energia e vida, intelectualização das sensações, impulsos e emoções. Nessa fase Caeiro também faz grandes referências e saudações ao escritor Walt Withman, por quem nutria grande admiração. Vejamos: 

SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN
Portugal-Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!
De aqui, de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!



3ª fase: Campos disfórico


A última fase de Álvaro de campos é a mais expressiva. Caracteriza-se pela expressão de um profundo cansaço, desilusão, conflito entre a realidade e o próprio poeta, angústia, desânimo e a dor de pensar. Vejamos "Tabacaria":


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar? 







Bernardo Soares


"não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade." — Fernando Pessoa

Bernardo Soares é um particular heterônimo ou semi-heterônimo. Foi um ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, vivia sozinho em um quarto alugado e conheceu Fernando Pessoa em uma casa de pasto. Desse encontro, então, temos conhecimento do "Livro do Desassossego", considerado importante obra para a ficção portuguesa do século XX.

O livro é todo composto por fragmentos e esses tratam de uma autobiografia sem fatos, com drama das reflexões humanas, tédio e livre de estética. O livro é composto por investigações íntimas, baseadas na vida comum em Lisboa e "das sensações provocadas pelo anonimado". 


“Nunca teve de se defrontar com as exigências do Estado ou da sociedade. Às próprias exigências dos seus instintos ele se furtou. Nada o aproximou nunca nem de amigos nem de amantes. Fui o único que, de alguma maneira estive na intimidade dele. Mas — a par de ter vivido sempre com uma falsa personalidade sua, e de suspeitar que nunca ele me teve realmente por amigo — percebi sempre que ele alguém havia de chamar a si para lhe deixar o livro que deixou. Agrada-me pensar que, ainda que ao princípio isto me doesse, quando o notei, por fim vendo tudo através do único critério digno de um psicólogo, fiquei do mesmo modo amigo dele e dedicado ao fim para que ele me aproximou de si — a publicação deste seu livro."



A Poesia de Alberto Caeiro

O principal conjunto de poemas de Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos", é constituído por 49 poemas. Na obra, está sintetizado todo o estilo desse heterônimo. Trata-se de uma poesia aparentemente despojada, que foge de termos rebuscados, com uma sintaxe límpida, em versos livres e brancos. A criação, no entanto, só é simples à primeira vista, pois um olhar mais atento revela um conjunto de pensamentos coerentes, o que insere sua obra na categoria das poesias de fundo filosófico, com inclinação metafísica.

A maneira como Caeiro faz isso, porém, é paradoxal: a afirmação de sua filosofia é uma não-filosofia, um não-pensar e, portanto, não-desejar, o que o aproxima, nesse aspecto, do zen-budismo oriental. 

“Eu não tenho filosofia: 
 tenho sentidos… 
Se falo na Natureza 
não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque quem ama 
nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, 
nem o que é amar… 
Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência 
não-pensar…” 
Só tenho pena de saber 
[que eles são contentes, 
Porque, se o não soubesse, 
Em vez de serem contentes 
[e tristes, 
Seriam alegres e contentes”. 
[vida fosse um carro de bois 
Que vem a chiar, 
[manhãzinha cedo, pela estrada, 
E que para de onde 
[veio volta depois 
Quase à noitinha 
[pela mesma estrada. 

Caeiro opõe os seus sentidos a uma filosofia, um conjunto de pensamentos. É por isso que se pode chamá-lo de um poeta “sensacionista”.

Contudo, não se deve pensar – nem muito menos escrever – sem utilizar a linguagem, e é por isso que a poesia de Caeiro encontra sua força de tensão na contradição que é o “pensar-não-pensando” ou o “não-pensar-pensando”. A “inocência de não-pensar” nunca é atingida plenamente pelo poeta, embora ele sempre afirme o contrário. Por exemplo, no verso “Há metafísica suficiente em não pensar em nada” foi preciso que o eu-lírico escrevesse a palavra metafísica e pensasse na não-validade de seu significado. Observe o texto abaixo: 

“Os meus pensamentos [são contentes. 

O poeta afirma, primeiramente, que seus pensamentos são contentes, mas logo coloca uma objeção ao contentamento positivo do primeiro verso: “saber” que se é contente resulta numa tristeza que, no universo de Caeiro, será sempre a conseqüência do pensamento. A equação em Caeiro é sempre dupla: positivo (contentes) e negativo (tristes) andam juntos, estão opostos, mas dependem um do outro para existir. Outro poema que ilustra essa dualidade é o seguinte: 

XVI 
Quem me dera que a minha 
Eu não tinha que ter esperanças 
[ — tinha só que ter rodas… 
A minha velhice não tinha rugas 
[nem cabelo branco… 
Quando eu já não servia, 
[tiravam-me as rodas 
[E eu ficava virado e partido 
no fundo de um barranco. 

A expressão inicial “quem me dera”, seguida do uso do subjuntivo “fosse”, remete a um desejo do poeta, que é também uma projeção ou idealização. Nesse sentido, Caeiro contraria a própria receita de não desejar e não contemplar. Seu olhar é puro pensamento, ideologia materializada de um bucolismo moderno, que se revolta contra as ideias sedimentadas e tenta buscar as origens de um pensamento mítico por meio da linguagem. No poema, a forma busca ser anterior a si mesma. 

Ricardo Reis

Ricardo Reis nasceu em Porto, Portugal, no dia 19 de setembro de 1887. Estudou em colégio de jesuítas e formou-se em medicina. Era monarquista e exilou-se no Brasil, em 1919, por discordar da Proclamação da República Portuguesa. Foi profundo admirador da cultura clássica, tendo estudado latim, grego e mitologia.

É a personalidade que se identifica com os clássicos da Antiguidade. Seu espírito reflete a doutrina de Epicuro, caracterizada pela identificação do bem soberano com o prazer, o qual há de ser encontrado na prática da virtude e na cultura do espírito. A obra desse heterônimo é a ode clássica, cheia de formalismo e princípios aristocráticos. O poeta latino Horácio foi um grande inspirador de sua poesia, principalmente no que diz respeito à filosofia de carpe diem, isto é, usufruir do momento, como também no uso de gerúndios, imperativos e inversões de sintaxe, como os hipérbatos.

Suas primeiras foram publicadas na revista Athena, fundada por Fernando Pessoa em 1924. Entre 1927 e 1930, publicou várias Odes na revista Presença, de Coimbra. A ideia desenvolvida em sua obra faz parte do pensamento Greco-romano: clareza, equilíbrio, as boas formas de viver, o prazer, a serenidade. Além do epicurismo, possuía o estoicismo também como influência, que propõe a aceitação do acontecimento das coisas e a rejeição às emoções e sentimentos exacerbados.
Em sua biografia não consta a data da morte de Ricardo Reis, mas o escritor José Saramago em seu livro "O Ano da Morte de Ricardo Reis", situou-a em 1936.